A 16ª Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Toledo, que culminou na aprovação unânime em primeiro turno da cassação dos vereadores afastados Dudu Barbosa (MDB) e Valdomiro Bozó (PL), foi marcada por discursos contundentes no plenário. Um dos pronunciamentos mais enfáticos partiu do líder de Governo, vereador Professor Oséias (PP), relator do processo na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que expôs os bastidores do esquema, criticou severamente as teses de defesa dos réus e revelou o tamanho do desgaste institucional sofrido pelo município.
Em sua fala, Oséias rebateu os colegas que justificavam a omissão sob o pretexto de "aguardar a decisão da Justiça", explicando que o papel do Poder Legislativo é julgar a quebra de decoro sob a ótica da moralidade. “Quando alguns dizem 'eu queria aguardar a justiça', na verdade ou estavam num arrasto ou estavam na proteção, porque esse de aguardar a justiça é não entender o que cabe ao Poder Legislativo. O Poder Legislativo atua no seguinte cenário: é moral ou imoral? A justiça criminal atua em restringir a liberdade... E a Câmara cabe o julgamento se é imoral ou se é moral”, declarou o parlamentar.
O "Circo Armado" e as mentiras da Defesa
O Professor Oséias detalhou página por página os absurdos contidos na defesa dos réus, que tentaram justificar a cobrança de R$ 300 mil ao empresário Gilberto Allievi como se fosse uma "doação" para a reforma de uma associação de moradores ou do Parque Genovefa Pizzato. O relator revelou que o próprio prefeito Beto Lunitti, ao ser questionado, confirmou a total inexistência de qualquer plano para a área. “Quando o prefeito Beto vai dizer, pergunta para ele: tem algum projeto do parque? Não. Está escrito em alguma folha? Não. Sequer tinha base fundamental nisso”, disparou.
Para o parlamentar, a conduta de trancar-se em um gabinete oficial, confiscar aparelhos celulares e negociar valores espúrios com empresários manchou a história do Legislativo local. “Na comissão, jamais eu vi na história chamar no gabinete da presidência. Me perdoa, nós estamos rastreados pela Polícia Federal! Vergonha! Chamar uma parte, empresário para dentro do gabinete... Eles sabiam o rastro. E fica o nosso parabéns a este empresário, pela coragem de abrir [o caso]”, ressaltou, fazendo referência à gravação ambiental que desmantelou o esquema.
A "Vaidade do Imperador" e o Timing do Crime
O relator ironizou a tese dos acusados de que a exigência da propina de R$ 300 mil e a famosa ordem de "dividir por sete" seriam necessárias para angariar o apoio político e a assinatura de sete vereadores para uma emenda. Mencionando a própria sentença expedida pelo juiz Murilo Conehero Ghizzi na manhã daquela segunda-feira, Oséias relembrou que, regimentalmente, bastava o parecer do próprio relator (que era Valdomiro Bozó) para que a matéria tramitasse legalmente, sem qualquer necessidade de costura financeira oculta. “O poder judiciário disse assim: não precisa de sete, basta um relator apresentar junto com o seu parecer. Bastava o Valdomiro Bozó apresentar o parecer dele e seria aprovada a modificação. Isso estava na vaidade do imperador, a vaidade do vereador que pensa que o poder é dele.”
Um dos pontos mais graves levantados pelo Professor Oséias foi o momento em que o crime de corrupção passiva foi cometido: logo após o resultado das eleições municipais. Segundo o parlamentar, o Projeto de Lei nº 149/2024 tramitava na Casa desde o ano anterior, mas a abordagem criminosa só foi desfechada após a derrota do grupo político dos réus nas urnas.
“Esse projeto estava desde o ano passado nessa casa. Não aconteceu antes da eleição... Aconteceu pós-derrota. E eu abro ações aqui: se pós-derrota o presidente do legislativo, Dudu Barbosa, e o líder de governo do réu têm coragem de fazer isso, o que será que não fizeram antes da derrota? O que será que já praticaram?”, indagou Oséias sob forte silêncio no plenário.
Ao encerrar, o vereador, que também é professor de filosofia, evocou a ética para exigir uma resposta severa da Câmara, cobrando que Toledo, uma cidade universitária com mais de 160 mil habitantes, vire essa página sombria. “A filosofia me ensina ética. Fui professor que conduz os nossos alunos, jamais poderia ter aceitado na Casa o uso da mesa da presidência para uma imundície. Como seria votar favorável com o circo armado e amanhã olhar nos olhos de um servidor público? Um servidor público quando erra tem que passar por sindicância, mas o parceiro não pode? Nós não aceitaremos essa página. Os corruptos precisam entender que nós não temos o poder de manipular e movimentar por meios escusos para retirar dinheiro da população de modo indevido”, finalizou.
Da Redação
